Do outro lado da névoa tem uma mulher


Eu tenho desaparecido aos poucos. Estou sempre por aqui, toda sexta estou em um mesmo lugar e quase todo domingo estou em outro, mas eu tenho sumido. Alguns amigos perceberam, outros não. Alguns sabem que eu sou assim e só me esperam voltar, outros não. Nessas fases, às vezes fico mais próxima de uns que de outros, outros esses que muitas vezes estão entre as pessoas que mais amo no mundo e eu também não entendo os critérios. A questão é que eu não conheço ninguém que ame mais a própria companhia do que eu mesma e passo por fases em que eu tenho extrema necessidade de ficar só comigo. Isso veio mais forte ainda após uma época em que eu não podia ser eu mesma sem machucar outra pessoa, sem que minha forma de existir a ferisse e eu acabasse me ferindo junto por não “poder” ser. Já venho de um tempo me amando, igual a música de Seu Pereira e coletivo 401, que diz “Mas fui me armando / Me despindo, me trocando / Me sentindo, me soltando / Varrendo, arrumando a casa / Mexendo a ponta da asa! / Mostrando que eu tô esperto / Deixando o portão aberto” e agora só falta a parte do “Para quem quiser entrar”. Ninguém pode entrar aqui não, não agora. Mas sinto falta do carinho. Sinto falta de me sentir à vontade abraçando as pessoas. Eu tenho feito novas amizades, mas notei com tristeza que quando uma delas veio me abraçar, por pura demonstração de carinho, eu senti como se não tivesse mais em controle dos meus próprios braços. É estranho. Já faz um tempo isso, muito mais tempo do que eu gostaria e me pergunto se um dia vou me recuperar. Espero que sim.

Eu tenho desaparecido aos poucos. E. Tudo. Bem.

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O recado esquecido no bolso (e na mente)

Você me fez pequena, mesmo que sua maior vontade fosse me ver grande, mas grande dentro dos seus limites do que é ser grande. Grande dentro do seu entendimento do que é ser grandemente feliz. Grande dentro da sua capacidade de conversas coisas aleatórias, mas nunca grande dentro da minha vontade de conversar coisas importantes. Você me colocou no topo do seu mundo, mas eu tinha que ser o topo de tudo sem que ninguém soubesse, sem chamar a atenção, sem que ninguém me visse além das pessoas com quem você se sentia à vontade: e isso somava umas dez pessoas ou quinze, quando esse número é a quantidade de pessoas que conheci nos 2 últimos meses e falo abertamente sobre minha vida. Você dizia que não queria ser assim, e eu entendo. Eu acredito até. Mas eu já tinha passado por muita coisa e já tinha uma bagagem muito grande pra carregar a sua, pra esperar a sua ficar mais leve. Pra esperar que você não quisesse me barrar quando eu ouvisse uma música tocando e começasse a dançar, porque a realidade é que eu nem preciso de música, eu danço pela simples alegria de existir. Pra esperar que você não dissesse que tem ciúmes de minha amiga porque eu pareço ser mais aberta com ela, sendo que você me obrigava a ser fechada, porque quando eu me abria, você se encolhia de vergonha, e eu sentia culpa por existir, por ser quem sou. Pra esperar você começar a conversar com meus amigos e não ter mais que dedicar 100% do meu tempo a te fazer se sentir importante numa mesa cheia de outras pessoas importantes. Eu não podia sentar e esperar você entender que é normal outras pessoas terem passado por minha vida, pelo meu corpo, pela minha história. Que é normal que eu tivesse tido uma vida plenamente feliz antes da sua chegada. Que não é normal você deitar em posição fetal porque dois anos antes eu havia estado com alguém que você conhecia. Que não é normal você implorar para fazermos sexo, após uma briga, e chorar depois de eu ceder, porque você sentia aquilo como prova do meu amor quando eu só queria que você fosse embora. Não era normal você querer que eu me trancasse no seu mundo porque a única maneira correta de existir era a sua.



Esses dias eu tenho pensado muito em você. E sonhado com você. E minha família fala de você, mas eles não sabem como eu fui infeliz, mesmo que nunca você tivesse a intenção de fazer isso acontecer. Minha mãe fala de você e eu sinto vergonha de macular sua imagem. E eu deixo então todos pensarem que eu fui alguém ruim pra você. Eu deixo. Eu deixo todos ficarem inconformados porque deixei você e sua família entrarem em nossas vidas, mas se eu não deixasse, você choraria.



Eu lembro quando eu te chamei de amor pela primeira vez e você fez careta, pois não queria que os outros ouvissem, mas lembro que você disse que me amava antes mesmo de namorarmos. Eu lembro quando comprei um porta-retratos para gente e você não quis, pois não queria que os outros vissem, mas lembro que você cobrava que eu postasse foto com você nas redes sociais. Eu nunca te entendi. Nem entendo. Nem irei entender. Porque teu mundo era tão fechado nas tuas ideias que nem mesmo se eu passasse a vida ao seu lado, eu conseguiria.

Teve a vez que você falou mal de uma de minhas melhores amigas, porque ela era aberta demais. Chamava a atenção demais. Ria alto demais. Você quis falar mal dela, sem saber que ela e eu somos a mesma pessoa em corpos diferentes e eu só não vinha agindo assim porque você se ofendia com minha existência real. Ao menos era o que transparecia. Era o que me fazia sentir.

Também houve as vezes em que você me perguntava se eu tinha dormido com outros homens, citava nomes, se eu tinha feito x ou y com eles também. E eu dizia que não, porque não querer falar sobre era (pra você) dizer que sim. E dizer sim seria (pra você) o fim do mundo.

Eu repasso tudo na cabeça. Tudo. E eu me sinto mal. Porque eu saí mais inteira do quê antes e mais certa do que é certo pra mim. Mas eu fui seu primeiro amor. E o primeiro amor nos rasga o peito e tira qualquer vontade de amar outra vez (até que aconteça de novo).

Eu tenho lembrado muito de você. E o peito dói porque também te fiz mal. Eu abri um espaço na minha vida pra você e tenho certeza que hoje você seria muito mais feliz se nunca tivesse se apaixonado por mim. Tão perdidamente. Tão: você é o amor da minha vida e eu não sei o que fazer dela sem você.

Quando terminamos eu só senti alívio. Dias depois botei a mão no bolso e vi um papel. Você tinha me dado pra ler depois no dia que terminamos e eu esqueci. Na hora nem mesmo lembrei que você tinha me dado aquilo, abri, li e não faço mais ideia do que tinha escrito. Rasguei e joguei fira. Pra mim, era alívio e como se aqueles meses sufocantes faziam parte da história de outra pessoa.

O primeiro final de semana após terminarmos eu dediquei todo a mim. E eu nunca senti tanta liberdade em minha vida. Liberdade de escolha de poder fazer o que me dá prazer sem afetar negativamente a vida de outra pessoa, pelo simples fato de eu não querer passar 24h por dia juntos. Mesmo que a escolha fosse comer e assistir Netflix. O peso da culpa tinha me tirado o prazer das mínimas coisas. Me machuca lembrar disso.

E se reforço e falo e falo de novo sobre nós é pra eu não me sentir culpada por não querer carregar um peso que não é meu e não deve pertencer a ninguém. Um peso-âncora. Um peso-morte-de-mim-mesma. Um peso que me fazia nunca me sentir suficiente para você, porque o meu real não era bom o bastante, pois meu eu real não era igual o seu.

Não posso me sentir culpada, mesmo que eu sinta muito. Eu também te coloco no topo do mundo das pessoas de "coração bom", que erram sem saber. E não posso continuar a fazer isso comigo, e por isso repito todos os seus erros, pois dos meus já sei muito e tanto que nem mesmo um livro inteiro caberia tantas letras.

Eu escrevo pra lembrar os motivos.
Eu escrevo pra esquecer que doeu.









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Cartas para Ana 3

Querida Ana,


Tanto tempo que não te escrevo, tanta coisa pra falar... Sabe, eu abracei o egoísmo e durmo agarrada nele todas as noites. Ele me fala que tudo bem eu pensar em mim, que tudo bem eu não fazer pelo outro o que eu não quero. Que tudo bem estar deixando ir tudo o que me era obrigação. Tudo o que me pediam, eu fazia, tu sabe. Se alguém dissesse estar com vontade de algo, eu ia lá e providenciava. Se alguém me pedisse algo, por mais que eu não tivesse vontade alguma de fazer, eu faria. E hoje as pessoas ficam com raiva, Ana. Elas não entendem que eu não quero mais fazer a vontade de todo mundo. Elas não entendem que não é porque elas querem algo que eu devo ir lá fazer. Eu as acostumei assim, fazendo cada um ao meu redor se sentir o centro do universo, e agora eu finalmente entendi que o centro do (meu) universo sou eu. Tudo começou no meu aniversário, Ana. Pessoas que eu jamais esperaria um esquecimento ou desconsideração, o fizeram. E então eu entendi: não há ninguém mais importante que eu. Nunca houve. Pensar em mim é não sentir obrigação de responder quem só se reclama da vida, como se tudo fosse um problema, como se não desse pra extrair nada de bom de nenhuma situação. Pensar em mim é não sentir obrigação de comprar algo pra alguém porque entendi a indireta do "estou com vontade de comer tal coisa". Pensar em mim é praticar mais ainda o "responder depois", porque se era um pedido, eu responderia na hora, ocupada com o que estivesse, parando tudo pra cuidar do outro. Ana, você sabe quantas vezes eu chorei magoada com as atitudes de alguém, mas não dizia nada pra não ferir seus sentimentos? Eu permaneci num namoro que me fazia infeliz só pra não fazer a pessoa sofrer pelo término, e pior: só tive coragem de encarar o quanto era ruim depois que finalmente terminei, e isso quer dizer que eu não me permitia nem pensar no que me fazia mal só pra ver o outro feliz. Me pergunto onde eu poderia parar se continuasse assim, Ana. Hoje eu durmo e acordo com cobranças: "cadê você? Não vai me responder? Vamos fazer tal coisa?". Tal coisa que depende exclusivamente de mim ou de algo meu e quando eu nego ou não respondo, recebo sempre: "ah, você não era assim antes". Verdade, eu não era. E eu quero continuar não sendo. Eu quero ser cada dia mais livre. Quero aprender a dizer "não" depois da quantidade absurda de "sim" mentiroso que eu já disse. Eu tenho que praticar o não, Ana. O não pelo não, sem explicações, apenas porque eu não quero. Eu vou ficando cada dia mais sozinha, Ana. E quer saber? Eu nunca me senti tão leve.












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Tudo.

Eu sempre faço isso. Sempre. E eu já tinha me cansado e me prometido de que nunca mais o faria, mesmo já o tendo feito de novo e de novo e de novo. No fundo, eu sou uma romântica que acredita no poder do amanhã, afinal "românticos são loucos desvairados". Eu tinha me jurado que não era tempo, que eu não deixaria ninguém, ninguém mesmo, entrar. Nem que batesse na porta, nem que espancasse a porta, nem que tentasse derrubar a porta, nem se conseguisse destruir a porta... porque aí eu pularia pela janela. Era isso, era essa a decisão. E então tu chegou. Eu sei como tu veio, mas eu gosto de pensar que não sei, porque pareceu tão assim, de repente (e meio que foi). E eu estou caindo fora antes que eu peça pra você entrar, pelo simples fato de que eu destranquei a porta e esqueço da minha promessa quando o pensamento é sobre você. Isso aqui pode até parecer uma declaração, mas não é. Não tem sentimento pra tanto, não tem noites em claro, não tem sonhos antes de dormir e sonhos enquanto durmo, mas eu tenho medo de que eu acabe deixando acontecer, de me pegar pensando "e se...", sabe? Mas eu me prometi, e mesmo se não houvesse promessa, após tantos socos e lágrimas e não's, eu finalmente entendi que não podemos pedir a ninguém pra entrar ou pra ficar. O problema é que eu me deixei encantar, mas eu não posso. Porque o encantamento é o início da ladeira abaixo que vai cortando a pele, a alma, os músculos, os ossos, tudo, tudo, tudo, vai cortando tudo, vai ferindo tudo, vai sangrando tudo, tudo, tudo, tudo. Até só sobrar a gente deitada num colchão no chão do quarto, levantando apenas pra o almoço ou talvez a janta, dando as caras pela casa só pra família não perceber que você já não é mais você, fugindo do Sol, fugindo de gente, dormindo no colchão no chão por três meses porque você não tem força de colocá-lo na cama. Porque você não consegue nem mais existir. Porque os únicos momentos livres de dor são os dois segundos ao acordar quando você não recobrou a consciência ainda e então vem o baque e você recomeça a chorar, porque até respirar dói quando sua existência dói. Eu não lembro bem desses dias, se era segunda ou sexta-feira, se eu sorria de mentira, eu não lembro, eu só lembro que doía tudo e que eu pairava no ar, suspensa, me olhando de longe, mas era tudo em névoa. Eu não lembro como era, mas eu lembro como me sentia. E eu causei isso a uma pessoa, eu acabei causando isso a uma pessoa tão boa. E quando não é comigo, vai ser com os outros, então? Eu não sei, eu tenho medo. De tudo, tudo, tudo.





Tudo. Tudo pesa.
Até pensar.
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O tamanho das coisas.


Essa semana eu entrei, após anos, na casa que morei minha infância e adolescência inteiras. Na minha memória e histórias meu quarto era enorme. Sim, ENORME. Assim, com letras garrafais. Enorme, eu sempre dizia. Mas não é. Passei porta adentro e me deparei com um quarto no máximo mediano. Como coube tanta coisa ali? Acho que cabem mais memórias do que móveis, mais histórias do que “as duas camas com folga” que eu jurava caber lá dentro.

Vocês já pararam pra pensar no tamanho das coisas? A gente cresce e as coisas ficam pequenas ou será que a gente cresce e nossas lembranças que tornam as coisas grandes?

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Eu sei

Tenho uma relação íntima com as palavras, pois essas nunca me faltaram. Sempre fui ao seu encontro, ou antes disso, elas me chegavam... Então, o amor recíproco que chegou e eu não escrevi nenhum texto para/sobre ele. Penso que talvez o amor mesmo seja isso, vem tão quietinho que a palavra falta, pois não precisa ser dita. Mas sinto que falho... Para tantos quase-amores ou eu-achei-que-era-você-mas-não-era escrevi textos, poemas, músicas, trocadilhos e chorei até pensar "no próximo doerá menos" até chegar no "nunca mais" (e ser vencida pelo novo amor que sempre chega). Pra você não. Quando penso em você, em vez de escrever, eu só penso em sorrir. E clichê, eu sei.


Eu sei.
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A palavra.

A palavra sumiu. Me senti bicho morto, como um pássaro sem o poder de voar. Eu tentava buscar as palavras, mas elas corriam de mim e fiquei vazia. Por um tempo, eu tentava falar e não conseguia, eu queria escrever e não começava, eu queria voltar a ser, mas não era. Tinha me perdido de mim e as palavras se esconderam para que eu não as colocasse pra fora e as desse poder. A palavra sabe a força que tem. Há algumas semanas elas quiseram vazar, levantei à noite para escrever, mas desisti por não saber o que as palavras guardavam pra mim, pois não sou eu que as escrevo, mas elas que me conduzem e dizem por onde querem ir. Há quatro noites eu comecei a pensar o início de um texto, mas caí no sono e já não me lembro mais, ou nem mesmo tentei. Hoje, finalmente, senti coragem. Mas elas saíram e não falaram nada sobre o que eu pensava que poderiam querer falar. Hoje eu não quis (elas não quiseram) falar do passado, nem do futuro, nem de dor, nem do esquecimento ou do descobrimento de pessoas muitas dentro de uma pessoa única que me rasgou o peito, ou de uma pessoa nova com o leve cheiro de ipê florido, quase como se quisesse adiantar a primavera. Hoje elas quiseram falar sobre a liberdade de poderem sair sem o peso do receio, do medo e da dor. Hoje elas saíram gritando liberdade. Pássaro voando por cima da ponte enfeitando o céu-rio-casa. A palavra voltou- e isso significa que o medo que foi embora-.

Estou pronto. Pode vir mais.
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18.03

Tem um texto que começa com “Você não sabe, nem sonha, mas acabou de mudar minha vida”, e é isso. Você me mudou. E este aqui é um texto de agradecimento. Obrigada por ter me feito crescer e por ter ensinado tantas coisas que hoje já parecem inerentes a mim. Obrigada por cada risada e cada momento em que me fez acreditar numa felicidade possível. Antes de você eu estava desacreditada e pequena, então você veio e me fez grande. Obrigada por isso. Obrigada por ter aparecido e obrigada por ter ido embora sem olhar pra trás, tua ida me fez ainda maior. Tua ida me fez gigante. Eu já não me caibo e explodo por todos os lados a pessoa que me tornei. Olho pro passado tão recente e vejo minha jornada. Eu não precisava que você ficasse, porque ninguém precisa da presença daqueles que não querem ficar em suas vidas, mas eu certamente precisava da sua vi(n)da na minha. Após sua partida, parecia que eu tinha perdido uma parte de mim, uma perna, e que não conseguiria andar por um bom tempo, mas aqui estou correndo livre, com a cicatriz, mas firme, forte, grande: leoa na savana, mais forte que o rei. Hoje é o seu dia e eu fiquei esperando o fim do mundo. Fiquei esperando a dor que não cabe no peito por eu não me caber mais em sua vida. Esta dor nunca veio. Sentei e esperei. Não. Veio a culpa por não querer chorar, veio o medo por não estar mal, veio o desejo de não desejar nada, porque eu sentei e esperei pelo pior e esvaziei de todas as outras coisas. Me vi triste sentada em meio a tantas gentes, mas não doía e eu pensava que você sempre iria me doer um pouquinho. Você já me doeu muito, mas hoje eu sinto apenas gratidão. Sou porque fui. Sou hoje quem sou porque fui quem era com você, e eu sempre fui linda. Você me fez ainda melhor. Obrigada. Esta é a minha verdadeira felicitação de aniversário, mas não era justo te enviar. Gratidão por cada dia em minha vida, por cada beijo, por cada abraço, por cada lágrima e por cada pôr-do-Sol. Tu era lindo comigo sim, apesar de todos os pesares. Tu foi feio comigo sim, eu sei que você sabe. Mas assim fomos, um com o outro. Obrigada por ter ido embora quando eu tanto insisti para que ficasse, pois não fomos feitos um para o outro, mas fomos feitos para preencher páginas nas histórias das nossas vidas. Vou olhar pra você sempre, sempre, sempre com muito carinho e gratidão e com um desejo enorme de que um dia tu seja livre e feliz, assim como sei que serei e já estou conseguindo ser. Me inflando e me amando, porque tu não conseguiu me amar e descobri que era disso que eu precisava pra me tornar o que sou hoje. Sem você, eu não seria. Obrigada por ter feito parte da minha vida por tantos meses. Não sei se um dia fará parte de novo, se um dia vamos nos cruzar e conseguir nos abraçar de verdade, sem a feiúra dos nossos abraços desencontrados. Talvez nossos caminhos nunca mais se cruzem no mesmo lugar, mas obrigada e parabéns por ter sido luz, ter sido fôlego, ter sido amor e por deixar um tanto de tu em mim. Se eu deixei um tanto de mim em tu também, obrigada por me receber. Obrigada por ter sido tu, e tu é passageiro, eu sabia desde o início. Você é nômade e eu realmente te desejo um dia uma nova vontade de ficar. Nunca vou esquecer os olhos cor de marte que precisaram ir embora pra que eu mesma viesse me encontrar. Gratidão enorme por tudo. Com todo carinho, que vai estar sempre aqui, um coração inteiro de coisas boas. A paz que você ama. A liberdade que você almeja. A responsabilidade que você precisa. O amor em forma de gente, de todos que te rodeiam. Meus mais sinceros: parabéns e tudo de bom.
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O pomo de ouro.

"Eu abro no fecho". E assim preciso seguir. Faz três horas que não paro de chorar e parece que minhas lágrimas são um rio que nunca seca. Quando estou triste por você e tento lembrar de algo bom, é de você que eu lembro. E tudo dói em dobro. Você parece uma doença em mim e dói em todos os lugares. Minha irmã me pegou chorando, perguntou o que eu tinha e quase respondo que tenho você. Mas ela não entenderia, porque as pessoas não compreendem como estou por dentro. As pessoas nos veem pequenos, porque você nunca deixou que fôssemos grande coisa, mas eu nos via do tamanho do mundo e estou proporcionalmente ferida. Têm certas coisas que são sagradas e outras que são sentidas tão fortes quanto ácido corroendo o peito e, se tu soubesses como cada palavra que tu disse me rasgou, jamais as teria dito. Sigo juntando meus pedaços e tentando lembrar que eu sempre fui maior que tudo isso. "Jamais será", lembro você dizendo, em outro, mas parecido contexto. Lembro de cada palavra e não serão esquecidas. Mas de você, eu vou esquecer. Pensei que nosso fim seria o ódio, a raiva e o desgosto, mas será apenas esquecimento. Obrigada por pedir desculpas e me desculpe por ainda não ter conseguido responder que te (nos) perdôo. 

É que eu preciso ME perdoar de verdade.

Esse é mais um texto escrito entre lágrimas e sem beleza alguma, mas com um significado enorme.



Paz é quando você se perdoa. E, mais uma vez, passo por isso.


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Supernova.

          Ainda tem você em todas as esquinas das cidades. Em todo banco que eu sento e no cheiro do meu sabonete ao tomar banho. Tem você quando eu olho pro lado e uma coisa qualquer numa parede branca me faz lembrar de ti, nem que seja o branco dos teus olhos cor de marte. Eu tento não pensar em você todos os dias, mas tentar já é pensar na tua mão em cima da minha e no teu corpo em cima do meu. Não sei se você lembra de alguma coisa, mas eu acho que eu jamais esquecerei coisa alguma. De forma que, se eu fechar os olhos e me concentrar um pouco, é quase como se conseguisse sentir teu cheiro de roupa limpa, tão típico. É quase como se você estivesse por perto sorrindo, e eu juro que consigo ouvir tua risada e te inventar ao meu lado, tornando quase real a lembrança de estar contigo. Alguém já te disse o quanto é bom descansar no teu peito ou como o mundo parece pequeno ao deitar abraçada às tuas costas? Ali no cantinho, a visão dos teus cachos anestesiava as dores que se entregar à vida traz. Era quase - quase - como se valesse a pena quebrar minha promessa de não me apaixonar de novo. Faz uma semana que voltei a te ver, e eu ainda não consegui te olhar nos olhos. Eu tenho medo de cair ao olhar pra eles. Eles, que dizem tudo quando a boca cala. Neles, que cabe um planeta inteiro - e talvez seja essa a razão por eu ter orbitado tanto ao seu redor-. Tu era rei e eu súdita. É assim que, hoje, eu vejo. Todo dia eu acordo e penso "eu estou sentindo menos que ontem, e eu já não choro mais" e isso é mais sagrado do que muita oração minha. É verdade, eu não choro mais, mas eu quase choro todos os dias. Eu quase choro todos os dias porque ainda não consegui recuperar todas as minhas partes que me desfiz pra caber num espaço que nunca foi feito pra mim. Continuo cheia de buracos, e queria que isso soasse poético, mas a realidade é que dói igual ferida física. Tento preencher meus vazios a todo momento, mas os espaços são muitos e enormes e eu sinto falta de mim. Eu sinto falta de você, no clichê de a cada segundo, porque tem você em tudo que eu vejo, cheiro e toco. Mas eu sinto mais falta de mim. Eu quero muito você, sabendo que jamais te terei de novo, mas eu posso ter a mim. E eu me quero de volta. Eu me quero muito. Vai raiar o dia em que eu sorrirei sem pensar nos pedaços que me faltam. Nossa história me quebrou mais do que você ou as pessoas conseguem imaginar e eu estou aos cacos. Mas vai raiar o dia em que não haverá você em todos os cantos. Vai raiar o dia em que tu deixará de ser planeta e eu lua. Vai raiar o dia pra eu voltar a ser Sol.


          Enorme. Quente. Brilhando. Explodindo.
       
       
          Porque nós fomos Supernova.
          Mas eu sou signo solar. E como bom leão que ruge, eu sou rainha e estrela mais forte.
          A luz tem que vir de mim.
          E virá.








supernova:
  1. substantivo feminino
    ASTR
    estrela maciça que, num estágio avançado de sua evolução, explode, passando repentinamente a brilhar de modo muito intenso, para depois ir perdendo lentamente o seu fulgor.

          
   
        
          
          


          


     













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Dos planos.

Houve um tempo em que eu pensava que não haveria mais espaço pra solidão na minha vida, e então você veio e me mostrou que o amor não é essa coisa toda que muitos falam, muito menos essa coisa toda que poucos fazem, mas sim essa coisa toda que todos choram. Venho atravessando dois meses sozinha, quando pensava ter encontrado quem me ajudaria no caminho. É verdade, você nunca disse que ficaria, mas mesmo assim ficava. Ia ficando e fazendo planos. E você não pode fazer planos, se você não pretende ficar. Você não pode fazer planos pra janeiro, se ainda é junho, se você não pretende ficar. Você não pode virar e dizer que não me quer na sua vida, se você me colocou dentro dela e me fez gostar de cada lugarzinho. Você não podia ter feito isso comigo. Você planejou. E planejar é dizer, sem dizer, que vai ficar. E você não ficou.


Você não ficou.


Foi embora no barquinho de papel. 
Enquanto eu, aqui, me debato sem saber nadar.





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Cartas para Ana. 2

Querida Ana,


            Achei que as coisas estavam melhores e passei mais um mês num conto de fadas, mas tudo desmoronou e não sei porque pensei que tudo ficaria bem como estava. As coisas quase nunca são como queremos e, no meu caso, esse quase significa sempre. Eu tenho esse sentimento enorme grudado no peito querendo sair feito lágrima e banho sentada no chão embaixo do chuveiro, mas eu não me permito. Não me permito porque só ele e Deus sabem o quanto já me permiti pra tentar ir em frente, por nós. O quanto me permiti ir além do que eu deveria. O quanto me permiti querer e sentir isso que eu tenho medo de dar nome...
            Cada parte dele tem espaço pra beijo e carinho e jamais esquecerei isso. Mas, não se engane, essa não é uma carta sobre não conseguir esquecer. É uma carta sobre o esquecimento. Hoje eu me peguei tentando lembrar a sensação de um abraço dele, mas eu não lembro, Ana. Eu lembro que é quente, ele é sempre quente. E eu lembro que é casa. Mas eu não lembro mais como é a sensação de estar dentro dos seus braços e me sentir completamente compreendida. Não lembro como ele fica bonito de costas, cozinhando e dançando. Não lembro do calor do beijo na testa enquanto ainda estamos unidos depois de nos amarmos com nossos corpos. Não lembro do cabelo bagunçado e carinha de sono logo após acordar. Não lembro do tom exato olhos cor de marte dele... Mentira, Ana, eu lembro de tudo.  
          Não, amiga, eu não me arrependo por nada. No fundo sei que não e que se tivesse a chance, eu viveria tudo igual. Afinal, foi com ele que aprendi a olhar o pôr-do-Sol com amor e a apreciar pequenas coisas da vida e não quero perder isso nunca mais. Perder os detalhes, sabe? Mas às vezes bate uma angústia tão forte. Bate uma vontade de ouvir a voz, de sentir o cheiro do cabelo, de escutar o som que ele faz e antecede o sorriso. Ele faz o som, e mexe a cabeça e então sorri. E isso é tão lindo que eu queria ter olhos de fotografia só pra registrar o momento e nunca esquecer como alguém pode ser tão bonito assim. Bo-ni-to. E lindo.
        Durante esses dias eu quis escrever (à mão) várias cartas, poemas, dedicar músicas e chorar mil lágrimas, mas cada vez que eu quis escrever algo realmente significativo para ele, eu vim aqui escrever pra você. Ana, eu tenho tentado, mas é difícil quando toda piada fica sem graça se não posso compartilhar com ele. E eu estou tão acostumada a compartilhar tudo que quase por impulso eu mantenho contato, "olha, aconteceu isso", "olha, eu vi isso", "olha, tu soube disso?", e eu só quero gritar: OLHA, OLHA PRA MIM! E o pior é que eu sei que ele me olhou, me viu, me enxergou, Ana. Eu sei. Mas será que ele lembra de mim no dia-a-dia também, Ana? Eu queria muito que sim. É tão difícil...
          Eu fui uma pessoa horrível pra ele nos últimos dias, eu sei disso. Mas só nos dois sabemos. E parece que isso apagou a pessoa-amor que fui nos últimos meses. Eu não consigo lidar com isso, mas eu tento. E eu realmente quero que ele seja feliz, mesmo que não seja comigo. Mas o que me machuca é saber que a felicidade dele não é ao meu lado. Mas o que se há de fazer? Se eu tentei e fui além dos meus limites? E aqui me deixo um lembrete: nunca mais me doar.
          Eu estou exausta. E-X-A-U-S-T-A. Sinto como se fosse um paciente cardíaco precisando de um coração novo. Eu não aguento mais, Ana. E nem quero. Não quero nunca mais querer dividir minha felicidade com outra pessoa. Porque eu só quis isso duas vezes... E das duas eu fui embora juntando meus cacos pelo caminho. A gente pensa que consegue controlar o querer, Ana, mas a gente não consegue. Ele é tão especial, Ana. Não mentiu pra mim, mas eu queria tanto que algumas coisas tivessem sido diferentes. Pra eu ter paz. Pra eu pensar que eu lutei muito, mas ele lutou também, sabe? Ele lutou, ele tentou, mas eu queria que tivesse sido só mais um pouquinho. Há uns dias eu disse uma coisa e ele disse que não, que não éramos, e foi como se ele tivesse enfiado uma faca no meu peito e até hoje ela está lá... Como faz pra tirar, Ana? 
          Eu queria que ele tivesse tentado não ficar com outras pessoas. Ele não precisava tentar gostar de mim, ou me querer, porque isso simplesmente acontece. Mas queria que ele tivesse tentado ficar só comigo, que tivesse a chance e ele pensasse que era melhor não. "Melhor não, eu tenho vontade, mas eu tenho Lorena me esperando em casa". E então, eu teria ido embora tão tranquila, Ana. Porque eu olho pra mim mesma e só vejo que não fui capaz de ser pessoa-amor pra ele não querer nenhuma outra pessoa-aventura.
          Acho que tem uns quatro dias que escrevo essa carta, e está tudo confuso e feio e sendo rascunho. Tudo bagunçado. Eu quero muito que ele consiga amar alguém, Ana. Mas eu tenho tanto medo de isso foder comigo... E eu não quero amar de novo, amiga. De verdade. Meu coração hoje está mais protegido que Azkaban. Mas enquanto isso, estou aqui feito uma idiota cheirando uma toalha que tem o cheiro das roupas dele, Ana. Numa escala de zero a Lorena Granja de ser ridícula, eu estou em qual lugar, hein?
          Um dia depois que tudo ruiu, minha flor morreu, nossa flor. E eu sou muito espiritual pra não acreditar que ela sentiu toda a carga negativa do que houve conosco. Minha Maria Flor morreu. E eu chorei. E fiquei com medo de dizer a ele. E se ele não se importasse, Ana? E se ele não se importasse como ele não se importou em ir olhar o barquinho de papel que deixei para ele em seu caderno? A música fala que se você tem um barco, maior chance de se salvar. E eu queria tanto salvar a gente, Ana. Eu sei que ele não me quer mais como pessoa-amor. E que tentamos que fosse pessoa-parceira. Mas agora acho que pode não ter sobrado nem o pessoa-amiga, Ana. E como superar não ser mais amiga dele, me diz? Nem dos amigos. Nem da família.
       Será que ele pensa em mim um pedacinho do que penso nele, Ana? Será que nem meu barquinho pra nos salvar deu certo? Eu acho que ele me odeia, amiga. Não odiar, mas qual palavra usar? Eu dei tanto carinho, tanto cuidado, eu esperei tanto. Meu Deus, como eu esperei. E hoje ele não curte nem mais nem minhas fotos, Ana. Como se fosse pecado. Como... Como se o quê, Ana? Isso nem mesmo tem explicação. O que isso significa? Isso com certeza significa algo. Eu sou tão indiferente agora que até isso acontece? Às vezes olho até se ele ainda me segue. Se estou bloqueada. Que é melhor do que a simples indiferença, Ana. Do que ver e escolher me ignorar. Porque ele não fez escolhas diferentes? Isso me afeta. Porque vejo que são só as minhas. É só comigo. Sou eu. E o barquinho? Eu quero tanto entender tudo. São os detalhes, Ana... São sempre os detalhes... Às vezes nem parece ele, sempre tão atento a isso...
        Continuarei enxergando ele com os olhos do meu coração, Ana. Sabe aquelas histórias de quase-amor em que quando falam salta sempre um brilhinho no olho? E não mais por querer estar com ele ainda. Mas porque ele é bo-ni-to. E lindo.
          Eu só queria que ele se importasse com o barquinho, Ana. 



Para assistir:




















         
          
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Cartas para Ana. 1

Querida Ana,


          Anestesiada. É assim que eu gostaria de me sentir agora. Queria não estar sentindo nada e não ter consciência dessa dor fina rasgando o peito, mas poucas vezes me senti tão desperta. Se eu pudesse ter qualquer coisa no mundo agora, escolheria ter um vazio no lugar do meu coração: esse fodido que me comanda o corpo e a alma. Minha mãe hoje disse que eu devo ser amaldiçoada, pois o amor nunca dá certo pra mim. Nunca deu mesmo, então talvez ela tenha razão. Você sabe como ela é... às vezes ela acerta em cheio. 
          Você não sabe o que tem acontecido nos últimos dias, porque a palavra tem força e eu não queria dar poder ao que me assusta, mas aconteceu. Ele foi embora. Primeiro, eu me senti culpada. Depois, eu me senti despedaçada. Agora, eu nem sei mais o que sinto. Só sei que a dor é muita e parece espinho que entra no pé doendo e incomodando, mas a dor é na alma. Eu tinha me acostumado a ver tudo colorido, igual ele, mas agora voltei a enxergar em preto e branco.
          Ele disse que eu não fiz nada de errado, que eu lutei por nós dois desde o início enquanto ele só errava e fazia meu peito doer. Mas só foi assim mais ou menos, Ana. Ele disse que eu sou ótima e que há poucas pessoas como eu, que sou uma das melhores pessoas que já passaram por ele. Mas será mesmo, Ana? Se era assim, porque ele não quis ficar? Ele disse que se fomos felizes, foi porque eu fiz acontecer. Ele disse: olha pra mim, você é suficiente, eu quem não consigo. Mas eu não conseguia olhar pra ele, sabe porque?! Sabe quando você está de dieta e quer muito um doce, mas não pode, então evita até olhar pra um? Ele é o doce e eu sou a pessoa obesa com fome de açúcar. Mas também nem era só isso, Ana. Eu tinha medo de olhar pra ele e transparecer um pouco de raiva, que eu nunca permito sentir em meu coração. Eu estava com raiva porque, se eu sou tão boa assim, porque ele não tenta de verdade? Tenta me explicar, Ana. Me ajuda!
          Lutei com tudo que tinha, abdiquei de muita coisa, aceitei calada tantas outras, tudo para ficar e continuar, mas no fim, quem não quis ficar foi ele. Você consegue compreender? Eu disse a ele que lá na frente sei que eu entenderia, mas olha... lá na frente mesmo, porque agora está difícil. Eu acho que quando a gente encontra alguém que se dispõe a ficar, por mais que a gente ache que não consiga, a gente deve dar uma chance. Uma chance real. E não é nem ao outro, mas a nós mesmos. Eu tive pena, Ana. Ao mesmo tempo em que eu chorava, ele chorava também. Sabe, Ana, eu pensei que nunca fosse vê-lo chorar. Ele dizia que não conseguia muito,que era difícil. Eu parei de chorar olhando o choro dele, mas aí eu chorei de novo, Ana. E eu sentia pena. De mim, dele e do meu coração idiota que insiste em se apegar só em que nunca vai ter o mesmo apreço de volta.
          Eu gosto dele, Ana. E eu realmente tentei não gostar. Mas eu dizia a ele: eu estou apaixonada por você. Juro que pensei estar conseguindo lidar com meu sentimento, e acho que eu vinha conseguindo. Eu controlei tudo tão direitinho, e até onde coube luta, eu lutei. Mas sabe o que não controlo? Minha solidão. Eu estou me sentindo completamente perdida, sem rumo e sozinha. Sabe, Ana... Ele não era um passatempo, ele era meu parceiro. P-A-R-C-E-I-R-O. Você já teve isso? Eu pensava que não tinha, até ele virar pra mim e dizer que era melhor ir embora. Nessa hora eu pensei: perdi meu parceiro. Você acredita que nunca tinha pensado nele assim?
          Está tudo tão confuso. Parece que acabei de acordar e a luz do dia veio forte como um clarão. Eu passei 2 dias com essas palavras na cabeça: "ok, eu quero terminar". E se eu não tivesse perguntado, Ana? Será que teria acontecido? Olha eu aqui de novo me culpando. Ele disse que eu não devia me culpar por nada, mas eu não consigo. Daí hoje ele veio e falou de boca, e cada palavra que saiu dela parecia um corte de papel em cada centímetro do meu corpo. Porque eu perdi meu parceiro, Ana. E agora eu não sei mais com quem eu vou falar que sinto vontade de chorar ao assistir o pôr-do-sol sem parecer uma idiota.
          Nunca senti tanto medo de ficar sozinha. Estou olhando pra os lados e não vejo quase nada interessante. Ana, com ele tudo era interessante. Com ele eu cresci tanto que nem me caibo de tão imensa. É como se eu tivesse me tornado outra pessoa, e o principal que ele me ensinou foi a ter coragem. Mas eu estou me sentindo tão covarde agora. Com medo da solidão. Você já sentiu isso? Eu sinto que estou traindo ele se não me sinto corajosa. Eu estou louca, Ana?
          Ana, eu estou com medo de ficar sozinha. Eu me acostumei a ser com ele. E nem me dói saber que o contrário não é real, porque estou acostumada a sentir tudo sozinha e por dois, você bem sabe disso... Mas eu nunca senti tanto medo, Ana. Nem quando você-sabe-quem partiu meu coração em mil e achou bonito dançar em cima. Ali era só tristeza e vontade de morrer, rs. Mas hoje meu nome é medo. Eu nunca senti isso, é normal? É normal, Ana? Me ajuda!
          Atravessei as últimas horas como se eu fosse sozinha no mundo. Eu sinto como se não fosse capaz de fazer alguém ficar, Ana. Você já parou pra pensar que comigo ninguém fica? E é disso que vem meu medo. Eu perdi meu parceiro, mesmo que eu não fosse parceira dele, e voltei a ser só, mas só de um jeito maior. De um jeito dolorido que eu não sei se vou re-acostumar a ser. Eu também sei que isso vai passar, sempre passa, até se tornar pequeno, mas agora não, Ana. Agora está do tamanho que eu sou.
          Eu quis dizer a ele: "eu não preciso de você nem pra andar e nem pra ser feliz, mas como eu gostaria de andar e ser feliz ao seu lado". Eu quis, Ana. Mas eu sabia que de nada adiantaria e eu não ia mais lutar batalha perdida. A palavra de hoje foi luta. Ele dizia que sabia que eu tinha lutado. Eu também sei, sabe? Mas perdi todas as batalhas e a guerra. E agora eu estou terrivelmente só. Eu não estou, Ana. Eu sou.



Com carinho,


          

          
        
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Flor azul

Você vê beleza nas coisas simples e eu enxergo poesia nos teus olhos castanhos. E castanho deveria ser a nova cor do mar, só pra acompanhar tua presença que parece ocupar mais da metade do mundo. Eu não sei como é o pôr do sol em uma praia deserta, mas imagino que traga a mesma sensação de deitar em seu peito estrelado. Porque não esqueço de olhar tua pele sem pensar num céu cheio de estrelas e que se eu ligar os pontos, vai mostrar as notas de uma canção do Jobim. E que se eu prestar atenção na tua fala, vai sair um soneto do Vinícius. E que se fechar os olhos e escutar teu coração, vou ouvir um samba de alguém que não sei o nome, porque nunca fui conhecedora de música, embora hoje eu queira sempre cantar. Eu sempre pedi por poesia em minha vida e a vida me trouxe você, que parece um livro inteiro de poemas. Você merece todas palavras e eu não sei (nunca soube) escrever.
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Olha só, moço.

Olha só, moço da pele estrelada, tu é galáxia inteira com essa explosão de cores, tu chegou pra me colorir a vida. Olha só, moço do cabelo enroladinho, tu veio pra fazer laço e desfazer os nós, tu é tão bonito e faz a vida tão bonita que eu queria ver o mundo com teus olhos só pra ver beleza em tudo que chega... Só pra entender porque tu me olha como se eu fosse tão bonita também. Olha só, moço do peito que se faz lar, tu aqui me faz querer encostar até dormir e só acordar se for pra gravar como fotografia o beijo na testa que tu me dá. Tu beija a testa, e eu fecho os olhos querendo parar o tempo. Olha só, moço do sorriso de ladinho, tu me faz rir até doer a barriga e essa foi a única dor que tu me causou até agora. Será que posso me acostumar com isso? Olha só, moço do abraço quente, eu danço contigo, se tu dançar comigo também. Se tu me chamar, eu danço a noite inteira até o pé doer e eu conseguir voar. Olha só, moço que mexeu minha vida. Tu veio. Tu chegou. Tu vai ficar? Se tu quiser ficar, eu vou querer também. Olha só. Olha pra mim. Eu tenho medo do barulho que o coração faz, mas tu apareceu querendo fazer música.

Olha só, moço.
A calmaria que chega é da cor dos teus olhos castanhos?





(Eu nunca quis escrever sobre você, mas você é maior que as palavras. Elas teimam em sair, mas todas ficam feias se são sobre você).



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adEUs

Você nunca foi embora de verdade. Em todos os cantos e contos tinha você. Em tudo que era eu tinha você. Como uma história antiga, um versão acústica de uma canção de amor, como tudo o que é bonito, você parecia ser brecha de sol que aparece em céu nublado. E eu pensava caminhar só sem perceber o peso da sombra que eu carregava. A sombra de um você-fantasia, um você-perfeito, um você-ainda-não-deu-certo-mas-vai-dar. Você era pedaço meu, história minha, pedaço do mundo. E então eu percebi que tinha certas portas que eu não conseguia passar porque tinha você. Você que sempre me pareceu janela para o novo mundo agora era o que me freava. Como te soltar se eu tinha medo que eu me quebrasse, como se tu que me fizesse inteira? Como se eu só fosse eu enquanto existisse você? Tua parte ruim já fazia parte de mim. Sem você eu pensava que não sabia mais ser. Mas o destino foi cercando... era tudo porta pequena, espaço contado pra eu-sozinha e não eu-você. E agora eu quero entrar. A porta está aberta. Tem um tapete de boas vindas e lá dentro tem alguém chamando meu nome.

Você nunca foi embora de verdade, mas só agora percebi que não recordo a última vez que realmente esteve aqui. Chegou o momento de escolher e dizer:


ad(EU)s.


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Flores.

Sinto necessidade de escrever, mas não sei exatamente sobre o quê. Nenhum pensamento parece muito claro e nenhuma opinião parece concreta. Ter você de volta na minha vida transformou a calmaria forjada num caos. É como se, todo esses meses, minha vida tivesse sido um peça esperando o ato final e esse ato final fosse a tua chegada, a tua volta, a tua presença. Você é a mais clara lembrança do que minha ingenuidade e boa fé podem causar. E então, quando eu havia decidido que espalhar amor e luz é doar pedaços de si até se faltar mais do que se ter (e ser), você volta. E pede um pouco da minha boa vontade. Você pede que eu me doe só mais um pouquinho. Você pede, sem pedir, para que eu esteja lá por você, porque você sabe que eu estarei. Você, como boa folha de outono que decide cair já ao final do inverno, ressurge sabendo que me faço primavera só pra teu caminho ser mais bonito. Você sabe e por isso você vem. Não vou mais me culpar por ser como sou e fazer o que faço, mas olha pro chão com cuidado e não pisa na grama. Porque, apesar de eu continuar crescendo, são tantas reviravoltas que olho pro lado e sim: a do vizinho é sempre mais verde. Por sorte, minha fé diz que ainda é tempo de renascer e florir. Renascer e florir. Nessa ordem. 

Por fim, por todos os males:
A culpa é sua.
A culpa é minha.
A culpa é dessa minha mania de sempre querer ver o mais bonito naquilo que há de mais feio.
Mas eu nunca mais vou culpar o amor.
Nunca. Mais.





"Eu pareço pedra, eu queria ser pedra, mas eu nasci flor".
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Ainda somos palavra.

Pensei que éramos apenas eco
De um passado não tão distante
Mas os laços não se cortaram
E tudo parece igual antes

Somos bambu
Que o vento enverga
E a tempestade bate
Mas não quebra

Como um coração flexível
Que nunca se parte
Não há oração que funcione
Para que eu me baste

Ainda somos palavra
E algumas rimas ruins
Me sinto um frágil poema
Da minha vida sem mim


"Abençoados os corações flexíveis, pois nunca serão partidos". (Albert Camus)




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Cortejo fúnebre.


Quando o amor morre, é triste.
E a morte do amor é mais triste que

vaso quebrado
coração partido
sonho roubado
verso esquecido


E então o amor morre
Como poesia perdida

Rima disforme
Dor retorcida


A morte do amor 
É um pedaço de um poema
Jogado fora
Que nunca virou canção
Nem nunca será
E além dessa morte
Nada mais vingará
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Do perdão.



Hoje, finalmente, olhei pra trás e me perdoei. Por todos os meus excessos, por todas as minhas dores e por todas as vezes que me culpei por coisas que não tive culpa alguma. Olhei pra mim e disse: eu me perdôo. Tenho estado pensativa, corpo presente e mente não sabia por onde andava, mas descobri... eu estava em mim. Me entendendo, me revendo, me compreendendo. E me perdoando. Eu me perdôo. Eu me perdôo por ter aberto minhas portas e por tanto ter me doado e me doído por quem nunca se doou para mim. Eu me perdôo. Eu estou perdoada. Eu finalmente me perdoei. Eu me perdôo porque eu não sei o exato porquê de ter passado por tudo isso, mas entendo que precisava passar por tudo o que passei. Eu me perdôo por ter amado um outro mais do que a mim mesma. Eu me perdôo por todas as vezes que não fiz por mim, mas fiz por ele. Eu me perdôo por ter sofrido tanto que pedia para não acordar no dia seguinte. Eu me perdôo por ter chegado a acreditar que não merecia ser feliz. Eu me perdôo por passar semanas numa cama sem vontade de viver. Eu me perdôo por ter me humilhado por quem nunca me olhou de verdade. Eu me perdôo por ter sido base e escada para quem nunca foi meu ombro. Eu me perdôo. E talvez eu precise me lembrar disso todos os dias por algum tempo, mas me perdoei. Perdoar não é esquecer, e irei sempre lembrar. Mas perdoar é deixar tudo leve. Hoje eu li: paz é quando você se perdoa. E, compreendi: essa estranheza que não sabia dar nome se chama perdão. Amém.


PS.: esse não é um texto bonito e poético. Esse é um texto sobre perdão e o perdão em si é poesia. 
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