Querida Ana,
Achei que as coisas estavam melhores e passei mais um mês num conto de fadas, mas tudo desmoronou e não sei porque pensei que tudo ficaria bem como estava. As coisas quase nunca são como queremos e, no meu caso, esse quase significa sempre. Eu tenho esse sentimento enorme grudado no peito querendo sair feito lágrima e banho sentada no chão embaixo do chuveiro, mas eu não me permito. Não me permito porque só ele e Deus sabem o quanto já me permiti pra tentar ir em frente, por nós. O quanto me permiti ir além do que eu deveria. O quanto me permiti querer e sentir isso que eu tenho medo de dar nome...
Cada parte dele tem espaço pra beijo e carinho e jamais esquecerei isso. Mas, não se engane, essa não é uma carta sobre não conseguir esquecer. É uma carta sobre o esquecimento. Hoje eu me peguei tentando lembrar a sensação de um abraço dele, mas eu não lembro, Ana. Eu lembro que é quente, ele é sempre quente. E eu lembro que é casa. Mas eu não lembro mais como é a sensação de estar dentro dos seus braços e me sentir completamente compreendida. Não lembro como ele fica bonito de costas, cozinhando e dançando. Não lembro do calor do beijo na testa enquanto ainda estamos unidos depois de nos amarmos com nossos corpos. Não lembro do cabelo bagunçado e carinha de sono logo após acordar. Não lembro do tom exato olhos cor de marte dele... Mentira, Ana, eu lembro de tudo.
Não, amiga, eu não me arrependo por nada. No fundo sei que não e que se tivesse a chance, eu viveria tudo igual. Afinal, foi com ele que aprendi a olhar o pôr-do-Sol com amor e a apreciar pequenas coisas da vida e não quero perder isso nunca mais. Perder os detalhes, sabe? Mas às vezes bate uma angústia tão forte. Bate uma vontade de ouvir a voz, de sentir o cheiro do cabelo, de escutar o som que ele faz e antecede o sorriso. Ele faz o som, e mexe a cabeça e então sorri. E isso é tão lindo que eu queria ter olhos de fotografia só pra registrar o momento e nunca esquecer como alguém pode ser tão bonito assim. Bo-ni-to. E lindo.
Durante esses dias eu quis escrever (à mão) várias cartas, poemas, dedicar músicas e chorar mil lágrimas, mas cada vez que eu quis escrever algo realmente significativo para ele, eu vim aqui escrever pra você. Ana, eu tenho tentado, mas é difícil quando toda piada fica sem graça se não posso compartilhar com ele. E eu estou tão acostumada a compartilhar tudo que quase por impulso eu mantenho contato, "olha, aconteceu isso", "olha, eu vi isso", "olha, tu soube disso?", e eu só quero gritar: OLHA, OLHA PRA MIM! E o pior é que eu sei que ele me olhou, me viu, me enxergou, Ana. Eu sei. Mas será que ele lembra de mim no dia-a-dia também, Ana? Eu queria muito que sim. É tão difícil...
Eu fui uma pessoa horrível pra ele nos últimos dias, eu sei disso. Mas só nos dois sabemos. E parece que isso apagou a pessoa-amor que fui nos últimos meses. Eu não consigo lidar com isso, mas eu tento. E eu realmente quero que ele seja feliz, mesmo que não seja comigo. Mas o que me machuca é saber que a felicidade dele não é ao meu lado. Mas o que se há de fazer? Se eu tentei e fui além dos meus limites? E aqui me deixo um lembrete: nunca mais me doar.
Eu estou exausta. E-X-A-U-S-T-A. Sinto como se fosse um paciente cardíaco precisando de um coração novo. Eu não aguento mais, Ana. E nem quero. Não quero nunca mais querer dividir minha felicidade com outra pessoa. Porque eu só quis isso duas vezes... E das duas eu fui embora juntando meus cacos pelo caminho. A gente pensa que consegue controlar o querer, Ana, mas a gente não consegue. Ele é tão especial, Ana. Não mentiu pra mim, mas eu queria tanto que algumas coisas tivessem sido diferentes. Pra eu ter paz. Pra eu pensar que eu lutei muito, mas ele lutou também, sabe? Ele lutou, ele tentou, mas eu queria que tivesse sido só mais um pouquinho. Há uns dias eu disse uma coisa e ele disse que não, que não éramos, e foi como se ele tivesse enfiado uma faca no meu peito e até hoje ela está lá... Como faz pra tirar, Ana?
Eu queria que ele tivesse tentado não ficar com outras pessoas. Ele não precisava tentar gostar de mim, ou me querer, porque isso simplesmente acontece. Mas queria que ele tivesse tentado ficar só comigo, que tivesse a chance e ele pensasse que era melhor não. "Melhor não, eu tenho vontade, mas eu tenho Lorena me esperando em casa". E então, eu teria ido embora tão tranquila, Ana. Porque eu olho pra mim mesma e só vejo que não fui capaz de ser pessoa-amor pra ele não querer nenhuma outra pessoa-aventura.
Acho que tem uns quatro dias que escrevo essa carta, e está tudo confuso e feio e sendo rascunho. Tudo bagunçado. Eu quero muito que ele consiga amar alguém, Ana. Mas eu tenho tanto medo de isso foder comigo... E eu não quero amar de novo, amiga. De verdade. Meu coração hoje está mais protegido que Azkaban. Mas enquanto isso, estou aqui feito uma idiota cheirando uma toalha que tem o cheiro das roupas dele, Ana. Numa escala de zero a Lorena Granja de ser ridícula, eu estou em qual lugar, hein?
Um dia depois que tudo ruiu, minha flor morreu, nossa flor. E eu sou muito espiritual pra não acreditar que ela sentiu toda a carga negativa do que houve conosco. Minha Maria Flor morreu. E eu chorei. E fiquei com medo de dizer a ele. E se ele não se importasse, Ana? E se ele não se importasse como ele não se importou em ir olhar o barquinho de papel que deixei para ele em seu caderno? A música fala que se você tem um barco, maior chance de se salvar. E eu queria tanto salvar a gente, Ana. Eu sei que ele não me quer mais como pessoa-amor. E que tentamos que fosse pessoa-parceira. Mas agora acho que pode não ter sobrado nem o pessoa-amiga, Ana. E como superar não ser mais amiga dele, me diz? Nem dos amigos. Nem da família.
Será que ele pensa em mim um pedacinho do que penso nele, Ana? Será que nem meu barquinho pra nos salvar deu certo? Eu acho que ele me odeia, amiga. Não odiar, mas qual palavra usar? Eu dei tanto carinho, tanto cuidado, eu esperei tanto. Meu Deus, como eu esperei. E hoje ele não curte nem mais nem minhas fotos, Ana. Como se fosse pecado. Como... Como se o quê, Ana? Isso nem mesmo tem explicação. O que isso significa? Isso com certeza significa algo. Eu sou tão indiferente agora que até isso acontece? Às vezes olho até se ele ainda me segue. Se estou bloqueada. Que é melhor do que a simples indiferença, Ana. Do que ver e escolher me ignorar. Porque ele não fez escolhas diferentes? Isso me afeta. Porque vejo que são só as minhas. É só comigo. Sou eu. E o barquinho? Eu quero tanto entender tudo. São os detalhes, Ana... São sempre os detalhes... Às vezes nem parece ele, sempre tão atento a isso...
Continuarei enxergando ele com os olhos do meu coração, Ana. Sabe aquelas histórias de quase-amor em que quando falam salta sempre um brilhinho no olho? E não mais por querer estar com ele ainda. Mas porque ele é bo-ni-to. E lindo.
Eu só queria que ele se importasse com o barquinho, Ana.
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