Querida Ana,
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Anestesiada. É assim que eu gostaria de me sentir agora. Queria não estar sentindo nada e não ter consciência dessa dor fina rasgando o peito, mas poucas vezes me senti tão desperta. Se eu pudesse ter qualquer coisa no mundo agora, escolheria ter um vazio no lugar do meu coração: esse fodido que me comanda o corpo e a alma. Minha mãe hoje disse que eu devo ser amaldiçoada, pois o amor nunca dá certo pra mim. Nunca deu mesmo, então talvez ela tenha razão. Você sabe como ela é... às vezes ela acerta em cheio.
Você não sabe o que tem acontecido nos últimos dias, porque a palavra tem força e eu não queria dar poder ao que me assusta, mas aconteceu. Ele foi embora. Primeiro, eu me senti culpada. Depois, eu me senti despedaçada. Agora, eu nem sei mais o que sinto. Só sei que a dor é muita e parece espinho que entra no pé doendo e incomodando, mas a dor é na alma. Eu tinha me acostumado a ver tudo colorido, igual ele, mas agora voltei a enxergar em preto e branco.
Ele disse que eu não fiz nada de errado, que eu lutei por nós dois desde o início enquanto ele só errava e fazia meu peito doer. Mas só foi assim mais ou menos, Ana. Ele disse que eu sou ótima e que há poucas pessoas como eu, que sou uma das melhores pessoas que já passaram por ele. Mas será mesmo, Ana? Se era assim, porque ele não quis ficar? Ele disse que se fomos felizes, foi porque eu fiz acontecer. Ele disse: olha pra mim, você é suficiente, eu quem não consigo. Mas eu não conseguia olhar pra ele, sabe porque?! Sabe quando você está de dieta e quer muito um doce, mas não pode, então evita até olhar pra um? Ele é o doce e eu sou a pessoa obesa com fome de açúcar. Mas também nem era só isso, Ana. Eu tinha medo de olhar pra ele e transparecer um pouco de raiva, que eu nunca permito sentir em meu coração. Eu estava com raiva porque, se eu sou tão boa assim, porque ele não tenta de verdade? Tenta me explicar, Ana. Me ajuda!
Lutei com tudo que tinha, abdiquei de muita coisa, aceitei calada tantas outras, tudo para ficar e continuar, mas no fim, quem não quis ficar foi ele. Você consegue compreender? Eu disse a ele que lá na frente sei que eu entenderia, mas olha... lá na frente mesmo, porque agora está difícil. Eu acho que quando a gente encontra alguém que se dispõe a ficar, por mais que a gente ache que não consiga, a gente deve dar uma chance. Uma chance real. E não é nem ao outro, mas a nós mesmos. Eu tive pena, Ana. Ao mesmo tempo em que eu chorava, ele chorava também. Sabe, Ana, eu pensei que nunca fosse vê-lo chorar. Ele dizia que não conseguia muito,que era difícil. Eu parei de chorar olhando o choro dele, mas aí eu chorei de novo, Ana. E eu sentia pena. De mim, dele e do meu coração idiota que insiste em se apegar só em que nunca vai ter o mesmo apreço de volta.
Lutei com tudo que tinha, abdiquei de muita coisa, aceitei calada tantas outras, tudo para ficar e continuar, mas no fim, quem não quis ficar foi ele. Você consegue compreender? Eu disse a ele que lá na frente sei que eu entenderia, mas olha... lá na frente mesmo, porque agora está difícil. Eu acho que quando a gente encontra alguém que se dispõe a ficar, por mais que a gente ache que não consiga, a gente deve dar uma chance. Uma chance real. E não é nem ao outro, mas a nós mesmos. Eu tive pena, Ana. Ao mesmo tempo em que eu chorava, ele chorava também. Sabe, Ana, eu pensei que nunca fosse vê-lo chorar. Ele dizia que não conseguia muito,que era difícil. Eu parei de chorar olhando o choro dele, mas aí eu chorei de novo, Ana. E eu sentia pena. De mim, dele e do meu coração idiota que insiste em se apegar só em que nunca vai ter o mesmo apreço de volta.
Eu gosto dele, Ana. E eu realmente tentei não gostar. Mas eu dizia a ele: eu estou apaixonada por você. Juro que pensei estar conseguindo lidar com meu sentimento, e acho que eu vinha conseguindo. Eu controlei tudo tão direitinho, e até onde coube luta, eu lutei. Mas sabe o que não controlo? Minha solidão. Eu estou me sentindo completamente perdida, sem rumo e sozinha. Sabe, Ana... Ele não era um passatempo, ele era meu parceiro. P-A-R-C-E-I-R-O. Você já teve isso? Eu pensava que não tinha, até ele virar pra mim e dizer que era melhor ir embora. Nessa hora eu pensei: perdi meu parceiro. Você acredita que nunca tinha pensado nele assim?
Está tudo tão confuso. Parece que acabei de acordar e a luz do dia veio forte como um clarão. Eu passei 2 dias com essas palavras na cabeça: "ok, eu quero terminar". E se eu não tivesse perguntado, Ana? Será que teria acontecido? Olha eu aqui de novo me culpando. Ele disse que eu não devia me culpar por nada, mas eu não consigo. Daí hoje ele veio e falou de boca, e cada palavra que saiu dela parecia um corte de papel em cada centímetro do meu corpo. Porque eu perdi meu parceiro, Ana. E agora eu não sei mais com quem eu vou falar que sinto vontade de chorar ao assistir o pôr-do-sol sem parecer uma idiota.
Nunca senti tanto medo de ficar sozinha. Estou olhando pra os lados e não vejo quase nada interessante. Ana, com ele tudo era interessante. Com ele eu cresci tanto que nem me caibo de tão imensa. É como se eu tivesse me tornado outra pessoa, e o principal que ele me ensinou foi a ter coragem. Mas eu estou me sentindo tão covarde agora. Com medo da solidão. Você já sentiu isso? Eu sinto que estou traindo ele se não me sinto corajosa. Eu estou louca, Ana?
Ana, eu estou com medo de ficar sozinha. Eu me acostumei a ser com ele. E nem me dói saber que o contrário não é real, porque estou acostumada a sentir tudo sozinha e por dois, você bem sabe disso... Mas eu nunca senti tanto medo, Ana. Nem quando você-sabe-quem partiu meu coração em mil e achou bonito dançar em cima. Ali era só tristeza e vontade de morrer, rs. Mas hoje meu nome é medo. Eu nunca senti isso, é normal? É normal, Ana? Me ajuda!
Atravessei as últimas horas como se eu fosse sozinha no mundo. Eu sinto como se não fosse capaz de fazer alguém ficar, Ana. Você já parou pra pensar que comigo ninguém fica? E é disso que vem meu medo. Eu perdi meu parceiro, mesmo que eu não fosse parceira dele, e voltei a ser só, mas só de um jeito maior. De um jeito dolorido que eu não sei se vou re-acostumar a ser. Eu também sei que isso vai passar, sempre passa, até se tornar pequeno, mas agora não, Ana. Agora está do tamanho que eu sou.
Eu quis dizer a ele: "eu não preciso de você nem pra andar e nem pra ser feliz, mas como eu gostaria de andar e ser feliz ao seu lado". Eu quis, Ana. Mas eu sabia que de nada adiantaria e eu não ia mais lutar batalha perdida. A palavra de hoje foi luta. Ele dizia que sabia que eu tinha lutado. Eu também sei, sabe? Mas perdi todas as batalhas e a guerra. E agora eu estou terrivelmente só. Eu não estou, Ana. Eu sou.
Com carinho,

