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Você nunca foi embora de verdade. Em todos os cantos e contos tinha você. Em tudo que era eu tinha você. Como uma história antiga, um versão acústica de uma canção de amor, como tudo o que é bonito, você parecia ser brecha de sol que aparece em céu nublado. E eu pensava caminhar só sem perceber o peso da sombra que eu carregava. A sombra de um você-fantasia, um você-perfeito, um você-ainda-não-deu-certo-mas-vai-dar. Você era pedaço meu, história minha, pedaço do mundo. E então eu percebi que tinha certas portas que eu não conseguia passar porque tinha você. Você que sempre me pareceu janela para o novo mundo agora era o que me freava. Como te soltar se eu tinha medo que eu me quebrasse, como se tu que me fizesse inteira? Como se eu só fosse eu enquanto existisse você? Tua parte ruim já fazia parte de mim. Sem você eu pensava que não sabia mais ser. Mas o destino foi cercando... era tudo porta pequena, espaço contado pra eu-sozinha e não eu-você. E agora eu quero entrar. A porta está aberta. Tem um tapete de boas vindas e lá dentro tem alguém chamando meu nome.

Você nunca foi embora de verdade, mas só agora percebi que não recordo a última vez que realmente esteve aqui. Chegou o momento de escolher e dizer:


ad(EU)s.


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Flores.

Sinto necessidade de escrever, mas não sei exatamente sobre o quê. Nenhum pensamento parece muito claro e nenhuma opinião parece concreta. Ter você de volta na minha vida transformou a calmaria forjada num caos. É como se, todo esses meses, minha vida tivesse sido um peça esperando o ato final e esse ato final fosse a tua chegada, a tua volta, a tua presença. Você é a mais clara lembrança do que minha ingenuidade e boa fé podem causar. E então, quando eu havia decidido que espalhar amor e luz é doar pedaços de si até se faltar mais do que se ter (e ser), você volta. E pede um pouco da minha boa vontade. Você pede que eu me doe só mais um pouquinho. Você pede, sem pedir, para que eu esteja lá por você, porque você sabe que eu estarei. Você, como boa folha de outono que decide cair já ao final do inverno, ressurge sabendo que me faço primavera só pra teu caminho ser mais bonito. Você sabe e por isso você vem. Não vou mais me culpar por ser como sou e fazer o que faço, mas olha pro chão com cuidado e não pisa na grama. Porque, apesar de eu continuar crescendo, são tantas reviravoltas que olho pro lado e sim: a do vizinho é sempre mais verde. Por sorte, minha fé diz que ainda é tempo de renascer e florir. Renascer e florir. Nessa ordem. 

Por fim, por todos os males:
A culpa é sua.
A culpa é minha.
A culpa é dessa minha mania de sempre querer ver o mais bonito naquilo que há de mais feio.
Mas eu nunca mais vou culpar o amor.
Nunca. Mais.





"Eu pareço pedra, eu queria ser pedra, mas eu nasci flor".
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Ainda somos palavra.

Pensei que éramos apenas eco
De um passado não tão distante
Mas os laços não se cortaram
E tudo parece igual antes

Somos bambu
Que o vento enverga
E a tempestade bate
Mas não quebra

Como um coração flexível
Que nunca se parte
Não há oração que funcione
Para que eu me baste

Ainda somos palavra
E algumas rimas ruins
Me sinto um frágil poema
Da minha vida sem mim


"Abençoados os corações flexíveis, pois nunca serão partidos". (Albert Camus)




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Cortejo fúnebre.


Quando o amor morre, é triste.
E a morte do amor é mais triste que

vaso quebrado
coração partido
sonho roubado
verso esquecido


E então o amor morre
Como poesia perdida

Rima disforme
Dor retorcida


A morte do amor 
É um pedaço de um poema
Jogado fora
Que nunca virou canção
Nem nunca será
E além dessa morte
Nada mais vingará
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Do perdão.



Hoje, finalmente, olhei pra trás e me perdoei. Por todos os meus excessos, por todas as minhas dores e por todas as vezes que me culpei por coisas que não tive culpa alguma. Olhei pra mim e disse: eu me perdôo. Tenho estado pensativa, corpo presente e mente não sabia por onde andava, mas descobri... eu estava em mim. Me entendendo, me revendo, me compreendendo. E me perdoando. Eu me perdôo. Eu me perdôo por ter aberto minhas portas e por tanto ter me doado e me doído por quem nunca se doou para mim. Eu me perdôo. Eu estou perdoada. Eu finalmente me perdoei. Eu me perdôo porque eu não sei o exato porquê de ter passado por tudo isso, mas entendo que precisava passar por tudo o que passei. Eu me perdôo por ter amado um outro mais do que a mim mesma. Eu me perdôo por todas as vezes que não fiz por mim, mas fiz por ele. Eu me perdôo por ter sofrido tanto que pedia para não acordar no dia seguinte. Eu me perdôo por ter chegado a acreditar que não merecia ser feliz. Eu me perdôo por passar semanas numa cama sem vontade de viver. Eu me perdôo por ter me humilhado por quem nunca me olhou de verdade. Eu me perdôo por ter sido base e escada para quem nunca foi meu ombro. Eu me perdôo. E talvez eu precise me lembrar disso todos os dias por algum tempo, mas me perdoei. Perdoar não é esquecer, e irei sempre lembrar. Mas perdoar é deixar tudo leve. Hoje eu li: paz é quando você se perdoa. E, compreendi: essa estranheza que não sabia dar nome se chama perdão. Amém.


PS.: esse não é um texto bonito e poético. Esse é um texto sobre perdão e o perdão em si é poesia. 
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Lírios brancos.

Mas

Eu acredito no poder tempo
E no poder do amor
E aquilo que hoje não floresce
Amanhã pode ser flor

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Das metáforas.


"Eu tinha a impressão que esse ano eu me sentiria diferente, mas isso nunca acontece".


Noite passada eu matei uma barata e então percebi: a barata sou eu. Essa não é uma divagação filosófica e tampouco sou Kafka, mas me vi barata e lá estava eu sofrendo no chão do banheiro. Entrei no banheiro e ela estava lá, enorme, quieta no canto. Peguei uma sandália e a esmaguei. Suas entranhas estavam todas pra fora, suas pernas esmagadas, suas antenas quebradas, é isso, eu tinha matado aquele monstro. Virei as costas e saí. Voltei com a pá, mas a barata se mexia. Toda estrepada, sofrida e se a barata falasse, estaria gritando de dor, mas estava lá: viva. Se mexendo. Se arrastando. Uma sobrevivente nesse mundo cão. Me reconheci e então, comecei a chorar. Sentei no chão do banheiro, junto à barata que era eu, e chorei. Esse texto não é ficção: eu chorei no chão do banheiro, junto à barata que era eu, numa noite de quarta feira. Mas eu não era bem a barata, o amor que eu sinto o é. O amor que eu sinto é um monstro, cheio de patas, podre, pisado e cuspido, mas sobrevivente. Que tipo de amor é esse que se arrasta com as entranhas pra fora, todo quebrado, todo partido, um amor zumbi, quase morto, mas ainda caminhando? Seguindo? Eu sentei ao lado da barata e chorei. Aquilo era eu? Eu sou isso? As pessoas me vêem assim? Chorei. Depois de tudo, depois de tantas mortes, como isso ainda sobrevive dentro de mim? Entendi como nunca porque consideram as baratas uma praga, entendi como nunca como eu sou e como me enxergam. Entendi como nunca que o meu amor é isso: a quase morte. Ainda chorando, peguei a sandália e terminei de matar a barata. Me levantei e saí. Deixei a barata lá. Hoje pela manhã, verifiquei: estava morta. Senti pena, quis chorar novamente. Será que eu também conseguirei morrer? Sou há tanto tempo esse amor quase morte que já me misturo e não sei mais ser sem, ser só. Ser eu. Não quero mais ser barata. O que falta pra eu morrer e finalmente voltar a ser vida? Não quero mais ninguém me pisando, mas quero deixar de ser isso. Vou descobrir um jeito. Se a barata que sou eu morreu, eu que sou quase morte, também morrerei. Não terei pena. Não terá lágrimas. Não mais.

Serei só eu.

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