A palavra sumiu. Me senti bicho morto, como um pássaro sem o poder de voar. Eu tentava buscar as palavras, mas elas corriam de mim e fiquei vazia. Por um tempo, eu tentava falar e não conseguia, eu queria escrever e não começava, eu queria voltar a ser, mas não era. Tinha me perdido de mim e as palavras se esconderam para que eu não as colocasse pra fora e as desse poder. A palavra sabe a força que tem. Há algumas semanas elas quiseram vazar, levantei à noite para escrever, mas desisti por não saber o que as palavras guardavam pra mim, pois não sou eu que as escrevo, mas elas que me conduzem e dizem por onde querem ir. Há quatro noites eu comecei a pensar o início de um texto, mas caí no sono e já não me lembro mais, ou nem mesmo tentei. Hoje, finalmente, senti coragem. Mas elas saíram e não falaram nada sobre o que eu pensava que poderiam querer falar. Hoje eu não quis (elas não quiseram) falar do passado, nem do futuro, nem de dor, nem do esquecimento ou do descobrimento de pessoas muitas dentro de uma pessoa única que me rasgou o peito, ou de uma pessoa nova com o leve cheiro de ipê florido, quase como se quisesse adiantar a primavera. Hoje elas quiseram falar sobre a liberdade de poderem sair sem o peso do receio, do medo e da dor. Hoje elas saíram gritando liberdade. Pássaro voando por cima da ponte enfeitando o céu-rio-casa. A palavra voltou- e isso significa que o medo que foi embora-.
Estou pronto. Pode vir mais.
