Você me fez pequena, mesmo que sua maior vontade fosse me ver grande, mas grande dentro dos seus limites do que é ser grande. Grande dentro do seu entendimento do que é ser grandemente feliz. Grande dentro da sua capacidade de conversas coisas aleatórias, mas nunca grande dentro da minha vontade de conversar coisas importantes. Você me colocou no topo do seu mundo, mas eu tinha que ser o topo de tudo sem que ninguém soubesse, sem chamar a atenção, sem que ninguém me visse além das pessoas com quem você se sentia à vontade: e isso somava umas dez pessoas ou quinze, quando esse número é a quantidade de pessoas que conheci nos 2 últimos meses e falo abertamente sobre minha vida. Você dizia que não queria ser assim, e eu entendo. Eu acredito até. Mas eu já tinha passado por muita coisa e já tinha uma bagagem muito grande pra carregar a sua, pra esperar a sua ficar mais leve. Pra esperar que você não quisesse me barrar quando eu ouvisse uma música tocando e começasse a dançar, porque a realidade é que eu nem preciso de música, eu danço pela simples alegria de existir. Pra esperar que você não dissesse que tem ciúmes de minha amiga porque eu pareço ser mais aberta com ela, sendo que você me obrigava a ser fechada, porque quando eu me abria, você se encolhia de vergonha, e eu sentia culpa por existir, por ser quem sou. Pra esperar você começar a conversar com meus amigos e não ter mais que dedicar 100% do meu tempo a te fazer se sentir importante numa mesa cheia de outras pessoas importantes. Eu não podia sentar e esperar você entender que é normal outras pessoas terem passado por minha vida, pelo meu corpo, pela minha história. Que é normal que eu tivesse tido uma vida plenamente feliz antes da sua chegada. Que não é normal você deitar em posição fetal porque dois anos antes eu havia estado com alguém que você conhecia. Que não é normal você implorar para fazermos sexo, após uma briga, e chorar depois de eu ceder, porque você sentia aquilo como prova do meu amor quando eu só queria que você fosse embora. Não era normal você querer que eu me trancasse no seu mundo porque a única maneira correta de existir era a sua.
Esses dias eu tenho pensado muito em você. E sonhado com você. E minha família fala de você, mas eles não sabem como eu fui infeliz, mesmo que nunca você tivesse a intenção de fazer isso acontecer. Minha mãe fala de você e eu sinto vergonha de macular sua imagem. E eu deixo então todos pensarem que eu fui alguém ruim pra você. Eu deixo. Eu deixo todos ficarem inconformados porque deixei você e sua família entrarem em nossas vidas, mas se eu não deixasse, você choraria.
Eu lembro quando eu te chamei de amor pela primeira vez e você fez careta, pois não queria que os outros ouvissem, mas lembro que você disse que me amava antes mesmo de namorarmos. Eu lembro quando comprei um porta-retratos para gente e você não quis, pois não queria que os outros vissem, mas lembro que você cobrava que eu postasse foto com você nas redes sociais. Eu nunca te entendi. Nem entendo. Nem irei entender. Porque teu mundo era tão fechado nas tuas ideias que nem mesmo se eu passasse a vida ao seu lado, eu conseguiria.
Teve a vez que você falou mal de uma de minhas melhores amigas, porque ela era aberta demais. Chamava a atenção demais. Ria alto demais. Você quis falar mal dela, sem saber que ela e eu somos a mesma pessoa em corpos diferentes e eu só não vinha agindo assim porque você se ofendia com minha existência real. Ao menos era o que transparecia. Era o que me fazia sentir.
Também houve as vezes em que você me perguntava se eu tinha dormido com outros homens, citava nomes, se eu tinha feito x ou y com eles também. E eu dizia que não, porque não querer falar sobre era (pra você) dizer que sim. E dizer sim seria (pra você) o fim do mundo.
Eu repasso tudo na cabeça. Tudo. E eu me sinto mal. Porque eu saí mais inteira do quê antes e mais certa do que é certo pra mim. Mas eu fui seu primeiro amor. E o primeiro amor nos rasga o peito e tira qualquer vontade de amar outra vez (até que aconteça de novo).
Eu tenho lembrado muito de você. E o peito dói porque também te fiz mal. Eu abri um espaço na minha vida pra você e tenho certeza que hoje você seria muito mais feliz se nunca tivesse se apaixonado por mim. Tão perdidamente. Tão: você é o amor da minha vida e eu não sei o que fazer dela sem você.
Quando terminamos eu só senti alívio. Dias depois botei a mão no bolso e vi um papel. Você tinha me dado pra ler depois no dia que terminamos e eu esqueci. Na hora nem mesmo lembrei que você tinha me dado aquilo, abri, li e não faço mais ideia do que tinha escrito. Rasguei e joguei fira. Pra mim, era alívio e como se aqueles meses sufocantes faziam parte da história de outra pessoa.
O primeiro final de semana após terminarmos eu dediquei todo a mim. E eu nunca senti tanta liberdade em minha vida. Liberdade de escolha de poder fazer o que me dá prazer sem afetar negativamente a vida de outra pessoa, pelo simples fato de eu não querer passar 24h por dia juntos. Mesmo que a escolha fosse comer e assistir Netflix. O peso da culpa tinha me tirado o prazer das mínimas coisas. Me machuca lembrar disso.
E se reforço e falo e falo de novo sobre nós é pra eu não me sentir culpada por não querer carregar um peso que não é meu e não deve pertencer a ninguém. Um peso-âncora. Um peso-morte-de-mim-mesma. Um peso que me fazia nunca me sentir suficiente para você, porque o meu real não era bom o bastante, pois meu eu real não era igual o seu.
Não posso me sentir culpada, mesmo que eu sinta muito. Eu também te coloco no topo do mundo das pessoas de "coração bom", que erram sem saber. E não posso continuar a fazer isso comigo, e por isso repito todos os seus erros, pois dos meus já sei muito e tanto que nem mesmo um livro inteiro caberia tantas letras.
Eu escrevo pra lembrar os motivos.
Eu escrevo pra esquecer que doeu.
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