Querida Ana,
Tanto tempo que não te escrevo, tanta coisa pra falar... Sabe, eu abracei o egoísmo e durmo agarrada nele todas as noites. Ele me fala que tudo bem eu pensar em mim, que tudo bem eu não fazer pelo outro o que eu não quero. Que tudo bem estar deixando ir tudo o que me era obrigação. Tudo o que me pediam, eu fazia, tu sabe. Se alguém dissesse estar com vontade de algo, eu ia lá e providenciava. Se alguém me pedisse algo, por mais que eu não tivesse vontade alguma de fazer, eu faria. E hoje as pessoas ficam com raiva, Ana. Elas não entendem que eu não quero mais fazer a vontade de todo mundo. Elas não entendem que não é porque elas querem algo que eu devo ir lá fazer. Eu as acostumei assim, fazendo cada um ao meu redor se sentir o centro do universo, e agora eu finalmente entendi que o centro do (meu) universo sou eu. Tudo começou no meu aniversário, Ana. Pessoas que eu jamais esperaria um esquecimento ou desconsideração, o fizeram. E então eu entendi: não há ninguém mais importante que eu. Nunca houve. Pensar em mim é não sentir obrigação de responder quem só se reclama da vida, como se tudo fosse um problema, como se não desse pra extrair nada de bom de nenhuma situação. Pensar em mim é não sentir obrigação de comprar algo pra alguém porque entendi a indireta do "estou com vontade de comer tal coisa". Pensar em mim é praticar mais ainda o "responder depois", porque se era um pedido, eu responderia na hora, ocupada com o que estivesse, parando tudo pra cuidar do outro. Ana, você sabe quantas vezes eu chorei magoada com as atitudes de alguém, mas não dizia nada pra não ferir seus sentimentos? Eu permaneci num namoro que me fazia infeliz só pra não fazer a pessoa sofrer pelo término, e pior: só tive coragem de encarar o quanto era ruim depois que finalmente terminei, e isso quer dizer que eu não me permitia nem pensar no que me fazia mal só pra ver o outro feliz. Me pergunto onde eu poderia parar se continuasse assim, Ana. Hoje eu durmo e acordo com cobranças: "cadê você? Não vai me responder? Vamos fazer tal coisa?". Tal coisa que depende exclusivamente de mim ou de algo meu e quando eu nego ou não respondo, recebo sempre: "ah, você não era assim antes". Verdade, eu não era. E eu quero continuar não sendo. Eu quero ser cada dia mais livre. Quero aprender a dizer "não" depois da quantidade absurda de "sim" mentiroso que eu já disse. Eu tenho que praticar o não, Ana. O não pelo não, sem explicações, apenas porque eu não quero. Eu vou ficando cada dia mais sozinha, Ana. E quer saber? Eu nunca me senti tão leve.

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E então...