Desestrutura.


Você me deu a mão e eu quis seu corpo inteiro. Eu quis cada pedacinho de ti que guarda um pouco de mim toda vez que te abraço sem jamais querer soltar. Já não sei o que fazer além de te olhar com olhos de quem finalmente entende o propósito das madrugadas e manhãs. Meus olhos parecem ter sido feitos para observar cada defeito da tua barba que me arranha e faz mais carinho do que todas as outras mãos que outrora me tocaram: a tua barba que só existe porque eu pedi tem a textura exata para a textura da minha pele. 

Você dança sem se dar conta enquanto eu danço querendo somar um par. 

Você dança sem se dar conta enquanto eu danço querendo somar um par. 

Você dança sem se dar conta enquanto eu danço querendo somar um par. 

Você dança. Eu danço.
Nós. 
Nos desatamos em nós.
Nos refazemos em feitos.
Que em nós permaneçamos. 
Enquanto em nós permanecemos. 
Que nossos fins sejam recomeço.
E que continuemos. 






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Água escura.




Eu não sabia o que falar, então chorei. Você me olhou como se aquilo tudo fosse novo e não soubesse o que fazer, mas você sabia. Você sempre soube o que fazer de mim, ainda que nem eu soubesse e vivesse me perdendo pelos corredores por onde andava -você sabe todos os caminhos enquanto ainda estou parada na porta decidindo se arrisco sair ou não-. Ainda sem saber o que falar, eu te encarei e implorei com o olhar para você não me esquecer, pra você não me perder na sua história cheia de outras pessoas que não sabem o que fazer e nem pra onde ir, mas não disse nada. Não havia mais o que ser dito. Quando te olhei e percebi que você já não me via, foi como se eu também tivesse ficado cega, como se todas as luzes tivessem se apagado e só houvesse escuridão. E eu continuei chorando esperando o rio secar, mas continuava a chover em mim. O céu desabava e eu continuava chorando. O mundo rodava e eu continuava chorando. As horas passavam e eu continuava chorando. Já amanheceu seis vezes e eu continuo chorando. Eu continuo chorando, porque eu já conheci os dias sem você e eles não têm luz. Eu continuo chorando, a fonte nunca seca e estou me afogando em mim. Eu não sei o que fazer, então choro.



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¹ Do que não importa.


Eu queria comer você. Te colocar dentro do labirinto que sou até você não encontrar mais saída e decidir morar em mim. Queria ser tua morada enquanto sou apenas casa de passagem, viagem de férias, feriado perdido numa cidade qualquer.
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A janela.


Você levantou para fumar um cigarro enquanto permaneci deitada sem saber meu próximo passo. Olhou a cidade pela janela como se tentasse decifrar o que as luzes dos carros apressados diziam, como se houvesse um código escondido entre os faróis e as gotas de chuva, mas parecia não entender nada. Nada fazia sentido. Nós dois não fazíamos sentido. Da última vez pensei que não haveria uma próxima, mas lá estávamos nós novamente enquanto eu tentava entender porque que continuamos a ser jogados um de encontro ao outro. E eu até acreditaria ser destino, se você não me tivesse feito perder a fé nos acasos afortunados da vida. Quando o cigarro chegou ao fim e você passou a mão entre os cabelos, pensei que talvez estivesse adivinhando meus pensamentos a respeito de tudo e ignorando meus sentimentos a respeito do que você é enquanto não somos. Eu continuei deitada te olhando como que por medo de você se esvair em lembranças, você continuou em pé mexendo na cortina como que tentando a todo custo ocupar as mãos e a mente com algo que não fosse eu. Eu me forcei a ficar calada, sabendo que qualquer palavra te espantaria e mandaria embora. Você também ficou em silêncio e o silêncio preencheu todos os espaços vazios que existiam entre nós. Nos olhamos e, igual a todas as últimas vezes, fingimos que tudo aquilo não era nada demais. Você foi embora e eu não sei se olhou para trás e não olhar para trás é tão doloroso quanto o fato de nunca olharmos para frente. Você saiu e eu tranquei a porta não sabendo se ainda quero te deixar entrar. O problema é que eu sempre esperarei que você pule a janela.


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Da (falta de) crença.



Aquelas conversas às 2h da madrugada de uma sexta-feira em que você nem pensa, só escreve, e sai tudo errado, mas tudo certo:


"Eu não exijo muito das pessoas, sabe? Porque por ser pé no chão, minhas expectativas são baixas. Sei que o que eu acho que seria bom pode não ser o bom pra outra pessoa. Pra mim foi bom, mas pra ele pode ter sido péssimo, mesmo eu achando que não foi ruim por tudo o que foi dito. E não falo só sobre isso, mas sobre todas as coisas. Eu sei que o meu certo não é o certo dos outros. (…) Não sou de passar vontade. Principalmente porque não tenho sentimentos por ele. Sou tão estranha que acho que se eu gostasse dele e ele me quisesse novamente só por oportunidade, eu não aceitaria. Porque seria migalha. E amor não deve ser alimentado por migalhas. Ou você o alimenta por meio de um banquete de amor recíproco, ou você pega migalhas e sofre com fome. (...) Nem sei como o amor é, mas imagino que seja tipo algodão doce. (E nem de algodão doce eu gosto. Pensando bem, talvez por isso que eu fuja). Uma vez eu sofri por amor e foi suficiente, hoje em dia tenho uma crença na falta de crença nele. Queria muito que tivesse alguém por aí no mundo que fosse pra mim, ou que se fizesse pra mim, mas sou cética e acho que já não há mais esperança. Então, eu, uma jovem de 22 anos, deixei de acreditar no amor romântico e isso é tão triste que quase me faz chorar, porque posso não crer no amor pra mim, mas acredito no amor pros outros. É entristecedor pensar (e até “saber”) que nunca viverei isso, mesmo que eu queira muito ter alguém para dividir domingos, dias chuvosos e filmes ruins. Uma pessoa que acredita no amor, mas não no amor para si, é tipo uma flor que nunca desabrocha e acho que nunca desabrocharei. Serei sempre uma expectativa que nunca se cumpre, uma estrela que já não é nem mais brilho de bilhões de anos atrás, mas apenas ilusão. Eu queria muito encontrar alguém para compartilhar minha vida, mas não encontro nem alguém pra dividir minhas tardes. E é triste eu ter perdido a fé no amor, mas pelo menos perdi peso também".

Ainda há o que se comemorar. A vida é boa.





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