Brisa leve.



Escuta, por hoje, por ontem e pelos últimos meses eu só queria dizer que te tenho no coração e que sinto saudades. Não falo dos beijos ou de estarmos a sós desnudos do mundo, falo da tua presença e da tua voz. Falo dessa coisa absurda que parece ser a morte pro outro quando as coisas desandam. Falo da estranheza e dos olhos que se esforçam em não se encontrar quando os corpos habitam a mesma sala. 

Escuta, por hoje, por ontem e pelos últimos meses eu só queria dizer que ainda sinto vontade de chorar e que a saudade é grande. Que não senti raiva e nem alegria, mas que quando eu te vi me enchi de tranquilidade como se fosse você quem trouxesse a paz do meu dia. Como se fosse você o motivo de "Wonderwall" ficar tocando incessantemente na minha cabeça, mesmo que eu mal saiba a letra. 

Sabe, o pior é ter tido razão em tudo: você não sente minha falta. Depois de tudo, você não sente minha falta. Eu atravessei quatro dias e três madrugadas sem uma palavra sua, como se tivéssemos morrido um para o outro, como se nada nunca tivesse importado. Pra você não importou. Você não sente minha falta e você não se importa. Eu entendo isso e sempre entendi, mas porque ainda assim dói? Hoje eu li "Que perda de tempo se doer por quem não sabe se doar"¹, e porque mesmo sabendo disso eu perco tanto meu tempo? Porque estar tão machucada se desde o início foi com pesar que pensei "eu vou me apaixonar e isso não vai ser bom"? Eu sempre soube, mas saber não exclui a dor. Em pouco mais de cinco meses eu vivi uma vida inteira ao seu lado e em menos de uma semana eu sofri o suficiente por cinco meses (ou um pouco mais). Exagero? Talvez, mas todas as primeiras vezes são exageradas. Você foi meu primeiro e pela primeira vez eu consegui dizer: eu estou apaixonada. Eu estou apaixonada, eu estou apaixonada, eu estou apaixonada. Mas eu, que sempre vivi tudo rápido, já posso dizer: eu estou desapaixonando, eu estou desapaixonando, eu estou desapaixonando. Na minha fugacidade, nunca soube sofrer por muito tempo e pelo menos isso eu não desaprendi ao seu lado. 

Não adianta eu continuar a brigar comigo por ter deixado você entrar, se você nunca nem bateu na porta. Não adianta eu continuar a ficar com raiva por ter deixado tudo acontecer, mesmo sabendo qual seria o desfecho. Não adianta eu remoer a decepção comigo mesma por ter finalmente me deixado precisar de alguém. Não adianta nada disso e por isso eu parei chorar. Não adianta negar, então admito:

"Escuta, por hoje, por ontem e pelos últimos meses eu só queria dizer que te amei um pouquinho". 


E, se chegou a ser amor, é por isso que você me dói tanto. E, se chegou a ser amor, deixará de ser e se tornará memória, porque bons ventos sempre sopram e você há de passar.

*(amar um pouquinho é amar muito pra quem nunca se deixou amar)



¹: Frase de Karla Tabalipa.




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Desestrutura.


Você me deu a mão e eu quis seu corpo inteiro. Eu quis cada pedacinho de ti que guarda um pouco de mim toda vez que te abraço sem jamais querer soltar. Já não sei o que fazer além de te olhar com olhos de quem finalmente entende o propósito das madrugadas e manhãs. Meus olhos parecem ter sido feitos para observar cada defeito da tua barba que me arranha e faz mais carinho do que todas as outras mãos que outrora me tocaram: a tua barba que só existe porque eu pedi tem a textura exata para a textura da minha pele. 

Você dança sem se dar conta enquanto eu danço querendo somar um par. 

Você dança sem se dar conta enquanto eu danço querendo somar um par. 

Você dança sem se dar conta enquanto eu danço querendo somar um par. 

Você dança. Eu danço.
Nós. 
Nos desatamos em nós.
Nos refazemos em feitos.
Que em nós permaneçamos. 
Enquanto em nós permanecemos. 
Que nossos fins sejam recomeço.
E que continuemos. 






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Água escura.




Eu não sabia o que falar, então chorei. Você me olhou como se aquilo tudo fosse novo e não soubesse o que fazer, mas você sabia. Você sempre soube o que fazer de mim, ainda que nem eu soubesse e vivesse me perdendo pelos corredores por onde andava -você sabe todos os caminhos enquanto ainda estou parada na porta decidindo se arrisco sair ou não-. Ainda sem saber o que falar, eu te encarei e implorei com o olhar para você não me esquecer, pra você não me perder na sua história cheia de outras pessoas que não sabem o que fazer e nem pra onde ir, mas não disse nada. Não havia mais o que ser dito. Quando te olhei e percebi que você já não me via, foi como se eu também tivesse ficado cega, como se todas as luzes tivessem se apagado e só houvesse escuridão. E eu continuei chorando esperando o rio secar, mas continuava a chover em mim. O céu desabava e eu continuava chorando. O mundo rodava e eu continuava chorando. As horas passavam e eu continuava chorando. Já amanheceu seis vezes e eu continuo chorando. Eu continuo chorando, porque eu já conheci os dias sem você e eles não têm luz. Eu continuo chorando, a fonte nunca seca e estou me afogando em mim. Eu não sei o que fazer, então choro.



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¹ Do que não importa.


Eu queria comer você. Te colocar dentro do labirinto que sou até você não encontrar mais saída e decidir morar em mim. Queria ser tua morada enquanto sou apenas casa de passagem, viagem de férias, feriado perdido numa cidade qualquer.
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A janela.


Você levantou para fumar um cigarro enquanto permaneci deitada sem saber meu próximo passo. Olhou a cidade pela janela como se tentasse decifrar o que as luzes dos carros apressados diziam, como se houvesse um código escondido entre os faróis e as gotas de chuva, mas parecia não entender nada. Nada fazia sentido. Nós dois não fazíamos sentido. Da última vez pensei que não haveria uma próxima, mas lá estávamos nós novamente enquanto eu tentava entender porque que continuamos a ser jogados um de encontro ao outro. E eu até acreditaria ser destino, se você não me tivesse feito perder a fé nos acasos afortunados da vida. Quando o cigarro chegou ao fim e você passou a mão entre os cabelos, pensei que talvez estivesse adivinhando meus pensamentos a respeito de tudo e ignorando meus sentimentos a respeito do que você é enquanto não somos. Eu continuei deitada te olhando como que por medo de você se esvair em lembranças, você continuou em pé mexendo na cortina como que tentando a todo custo ocupar as mãos e a mente com algo que não fosse eu. Eu me forcei a ficar calada, sabendo que qualquer palavra te espantaria e mandaria embora. Você também ficou em silêncio e o silêncio preencheu todos os espaços vazios que existiam entre nós. Nos olhamos e, igual a todas as últimas vezes, fingimos que tudo aquilo não era nada demais. Você foi embora e eu não sei se olhou para trás e não olhar para trás é tão doloroso quanto o fato de nunca olharmos para frente. Você saiu e eu tranquei a porta não sabendo se ainda quero te deixar entrar. O problema é que eu sempre esperarei que você pule a janela.


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