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| "Eu tinha a impressão que esse ano eu me sentiria diferente, mas isso nunca acontece". |
Noite passada eu matei uma barata e então percebi: a barata sou eu. Essa não é uma divagação filosófica e tampouco sou Kafka, mas me vi barata e lá estava eu sofrendo no chão do banheiro. Entrei no banheiro e ela estava lá, enorme, quieta no canto. Peguei uma sandália e a esmaguei. Suas entranhas estavam todas pra fora, suas pernas esmagadas, suas antenas quebradas, é isso, eu tinha matado aquele monstro. Virei as costas e saí. Voltei com a pá, mas a barata se mexia. Toda estrepada, sofrida e se a barata falasse, estaria gritando de dor, mas estava lá: viva. Se mexendo. Se arrastando. Uma sobrevivente nesse mundo cão. Me reconheci e então, comecei a chorar. Sentei no chão do banheiro, junto à barata que era eu, e chorei. Esse texto não é ficção: eu chorei no chão do banheiro, junto à barata que era eu, numa noite de quarta feira. Mas eu não era bem a barata, o amor que eu sinto o é. O amor que eu sinto é um monstro, cheio de patas, podre, pisado e cuspido, mas sobrevivente. Que tipo de amor é esse que se arrasta com as entranhas pra fora, todo quebrado, todo partido, um amor zumbi, quase morto, mas ainda caminhando? Seguindo? Eu sentei ao lado da barata e chorei. Aquilo era eu? Eu sou isso? As pessoas me vêem assim? Chorei. Depois de tudo, depois de tantas mortes, como isso ainda sobrevive dentro de mim? Entendi como nunca porque consideram as baratas uma praga, entendi como nunca como eu sou e como me enxergam. Entendi como nunca que o meu amor é isso: a quase morte. Ainda chorando, peguei a sandália e terminei de matar a barata. Me levantei e saí. Deixei a barata lá. Hoje pela manhã, verifiquei: estava morta. Senti pena, quis chorar novamente. Será que eu também conseguirei morrer? Sou há tanto tempo esse amor quase morte que já me misturo e não sei mais ser sem, ser só. Ser eu. Não quero mais ser barata. O que falta pra eu morrer e finalmente voltar a ser vida? Não quero mais ninguém me pisando, mas quero deixar de ser isso. Vou descobrir um jeito. Se a barata que sou eu morreu, eu que sou quase morte, também morrerei. Não terei pena. Não terá lágrimas. Não mais.
Serei só eu.


Puta que pariu.
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