Nó - 5 à seco.

Me pego parada a uma da manhã querendo dar a volta no mundo pra ver se assim percebo meu lugar. Meu sentimento de pertença é só comigo e talvez nem isso, me encontro perdida em mim mesma, com as mãos entre os cabelos procurando a melhor posição até tudo ficar dormente igual como estou. Escuto uma música e outra, assisto um filme e outros, me olho no espelho e nada. Só tenho sentido aquilo que a gente esconde por tanta desimportância que tem. E eu tento falar, eu juro que tento falar, mas não consigo, as palavras se embolam em minha boca e então me escuto dando uma gargalhada, como se estivesse tudo bem. E está. Está tudo normal.

Está tudo como sempre esteve.

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Boas novas não existem.

Pior parte do meu dia é quando eu penso no inteiro que poderia ter se tornado aquele quase que éramos nós dois. Agora estou aqui deitada tentando entender qual foi o exato ponto em que a gente se perdeu um do outro, o momento em que cada um seguiu seu rumo. É isso, acordo todas as noites pensando estar deitada em seu peito e caminho todas as tardes pensando estar ao seu lado e vou vivendo todos os dias guardando você aqui dentro. O tempo não passa e as horas nunca mais foram as mesmas depois de eu finalmente perceber que o nosso quase virou nada e que, depois de você fechar a porta, a janela também estava trancada. Tentei chorar todas as lágrimas do mundo e nenhuma foi derramada de tanto que chorei pra dentro, de tanto que me fechei em mim, de tanto que meu sangue parou de correr pra dar lugar ao choro que tomou conta disso tudo que eu nem sabia ser meu. Dói até essas partes que eu não sabia ter, dói tentar destrancar a janela, dói tentar reabrir a porta, dói olhar o relógio, dói tudo. Dói e eu não tenho mais você pra dizer que vai ficar tudo bem e que algumas músicas curam todas as dores mundo. Dói tudo que é eu depois que o nós parou de existir. Estou trancada em mim e não há canção que dê jeito. 
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Retalhos.

Mais uma noite insone em frente à tela em branco do computador. Mais uma noite tentando descobrir o porquê das coisas serem assim e o porquê de eu ser como sou. O que falta? Qual a parte que me cabe, mas não se faz presente? Eu nunca sei qual caminho seguir e sempre escolho ficar onde estou, parada, letárgica, morta. Preciso me mover e não sei aonde ir. Direita, esquerda, em frente, distante. Permaneci, fiquei, finquei. O problema é: já não sei mais onde sou. O que restou?

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Dos quases.

Às vezes rola aquele aperto no peito seguido de uma vontade de sair correndo sem rumo, sem roupa, ao vento. Sem lenço, nem documento, sem complicações e sem contas pra pagar... mas segunda eu tenho que ir ao banco, na terça eu tenho curso de inglês, quarta tem reunião com o síndico do prédio e assim vão seguindo os dias, as semanas, os meses, passa o ano e eu continuo indo dormir pensando "que bom seria se você estivesse aqui". Finjo que não é ruim, que não faz falta, que a cadeira vazia durante o almoço não tem importância e que o telefone que nunca toca é porque eu peço pra ninguém ligar. Continuo aqui, fingindo que você não vem porque eu permaneço com as portas fechadas, mas é mentira. Quer saber a verdade? Eu passo o dia esperando que você ligue pra gente ir tomar um café, de vez em quando fumo um cigarro fingindo que estou apenas tragando um pouco do seu, semana passada tomei uma dose de whisky porque era o que você bebia quando nos conhecemos e uma vez eu quase, quase, bati à tua porta na madrugada pedindo o abrigo que é o teu abraço. Sabe, eu quase, quase consigo fazer as coisas por inteiro, ainda que me falte um pedaço que é você. Meu problema é que te pedi pra ficar da última vez, mesmo sabendo que   você nunca deixaria de ir e que sempre arranjaria motivos pra sair por aquela porta quando eu deveria ser a sua morada. Agora fico sozinha com espaço suficiente para todas as pessoas do mundo que não são você, porque você não está. E olha, eu durmo de conchinha com a solidão todas as noites. Meu medo é algum dia desses eu ainda eu me convencer de que isso não dói.


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Carta aberta ao meu espelhinho.

Olha, não tem sido fácil. Semana passada me peguei pensando o porquê da gente ser tão triste. Parece que a gente força, que a gente complica, esmaga, prende, martela. Fica aquela vozinha na minha cabeça "'é melhor ser alegre que ser triste', já dizia o poeta, moça", mas como ser alegre se a única coisa que quero é dormir e só acordar quando um dia não pareça mais durar um ano? Vivo tentando ser feliz enquanto sinto esse aperto, essa corda ao redor do pescoço ameaçando enforcar se eu decidir pular em direção ao abismo, ao mesmo tempo em que o chão parece cada vez mais queimar meus pés, forçando uma tentativa de fuga. Qual a alternativa diante de tanta podridão aqui dentro? Acho que, quando eu morrer, vão perceber que meus órgãos estão pretos, vai estar tudo preto por eu ter sido uma fumante da tristeza. Como se eu tivesse inalado a infelicidade do mundo e tivesse me contaminado com a escuridão que tudo é. Pra completar tudo é dezembro, e dezembro é o pior mês. Todo mundo finge estar feliz, mesmo todos sabendo que a vida está uma bosta e não faz sentindo comemorar o Ano Novo se as coisas parecem sempre se repetir. Essa época é a pior do ano e eu pisei em você sem querer, desculpa. Me sinto perdida se não tenho mais onde verificar se ficou sujeira no meu dente. Me sinto meio ninguém sem você dentro da minha carteira. Mas sabe o que é pior? Não ter mais onde olhar pra me lembrar de mim enquanto digo "Sossega, moça, não pula. Deixa o chão queimar teus pés um pouquinho... Relaxa que logo sara". Vai sarar.


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